segunda-feira, 17 de dezembro de 2012


Brazilian Voice Newspaper: Ofício de sambista

Ofício de sambista
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Aquiles Reis on 12/12/2012 19:48:00
 
Em seu primeiro disco, Tania Malheiros canta músicas de qualidade, mostra-se
uma intérprete de muita sensibilidade e voz saborosa. Niteroiense, jornalista,
filha do saudoso cavaquinhista Mucio de Sá Malheiros, ela tem alma de sambista.
Daí tratar o gênero com o respeito de quem nele reconhece a cara e o jeito
carioca de ser e se manifestar. Portanto, é no samba que se ampara o
repertório do CD Deixa eu me benzer (independente), para se fazer delicioso de
se ouvir.
Nele, Tania contou com a rica participação do maestro, pianista e arranjador
Gilson Peranzzetta. O engajamento se traduziu na direção musical do trabalho,
fundamental para o resultado conquistado. Peranzzetta imprime seu toque de
classe em tudo o que toca. Lá está ele brilhando nos arranjos para oito dos
catorze sambas do álbum; os outros seis ficaram a cargo dos arranjos do
violonista José Roberto Leão.
As bases são simples, sem excessos nem mirabolantes demonstrações de
virtuosidade. Bases que permitem à harmonia e ao suingue se revelarem em cada
um dos doze sambas inéditos e nos dois regravados. Assim, Tania se permite
cantar como se estivesse numa roda de amigos no Candogueiro, em Niterói, ou no
Cariocando, no Rio de Janeiro.
Sambas inéditos:
“Cristal Partido” (Adilson Gavião e Sereno) tem arranjo de Gilson
Peranzzetta. A introdução conta com gaita (Rogério Siri), acompanhada do
violão de seis (Rafael Lobo) e de sete (Fernando Brandão), mais a percussão
de Felipe Tauil. Com o piano de Peranzzetta, Tania desliza com graça por entre
os fraseados.
“Vagabundo” (Anselmo Ferraz e Carlos Gomes) tem arranjo de José Roberto
Leão, que toca violões de seis e de sete cordas. Eles iniciam. Chega o canto.
Tania vem maneira, pisando macio. O bandolim e o cavaco de Henrique Garcia somam
sua inconfundível sonoridade às baixarias do sete. A percussão (Neném Chama
e Binho) dita o samba.
“Quem Não Sabe Amar” (Gilson Peranzzetta e Paulo César Pinheiro), arranjo
de Peranzzetta, tem piano e clarineta tocados por ele. O som grave da clarineta
dá ao lento samba ainda mais beleza. Os versos do poeta, cantados por Tania,
são como sempre belos.
“Palavras de Cal” (Tuninho Galante e Marceu Vieira) é um samba delicado. A
flauta (Dudu Oliveira) toca a introdução do arranjo de Peranzzetta. Tania se
desvela nos tristes versos do samba pungente, dos mais belos do CD.
“Primazia” (Wilson Moreira e Marcos Paiva) tem arranjo de José Roberto
Leão, que também toca violões de seis e de sete cordas. E são eles que fazem
a introdução. A percussão de Neném e Binho chamam o samba. O sete endoida em
fraseados, enquanto Tania segue seu ofício de ser sambista.
Impressiona como ela o exerce: como se nada quisesse, mas tudo querendo,
quebrando tudo. Fazendo do samba o seu dom. E seguindo dando um banho de
tranquilidade e total ausência de afetação. Parecendo cantar para si, sem se
importar com quem a ouve, mas a todos se achegando, dando-lhes arrepios de
incontida satisfação.
Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

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